sábado, 13 de março de 2010

Renúncia

Jaz em seio noturno
O sol da vida.
Pudera um ser taciturno
Gozar a felicidade na fronte querida?

Se me for dado
O privilégio de beber as águas do Letes,
Já que um ser desgraçado, frustrado,
Jamais encontra alma que o complete,
Estarei redimido,
Pois da vida sou descrido!

Oh, Érebo, tu que és o verdadeiro criador!
Tuas trevas rodeiam-me, turvam-me a visão;
Trovas calam-se, perdem-se na escuridão;
E morro tal qual o amor!

Será o féretro macio?
Troco, neste momento,
Desta vida o vazio
Pelo cobiçado perecimento.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Ditoso Amante

Às horas vespertinas,
Quando o sol começa a se desmaiar,
Tu te fazes divina,
Beleza que faz sonhar!
Amar-te é uma sina
Quem em meu peito faz-se brotar
Um jardim composto por flores
Belas e primaveris, que se abrem em amores.

Glorioso viver em meu peito inflama
Qual brasa de um encanto celestial;
Nestes campos o amor em chamas
Nas mãos de cetim; na boca jovial!
Eis que meu coração proclama
A lei do amor universal:
Amai, e sereis recompensados
Vós que, amando, não conhecestes o pecado!

Ouço o epitalâmio das aves do prazer
Reverberar em meu coração;
Meu peito, intumescido, não pode conter
Este ímpeto que pulsa de emoção...
Quantos ais proferi sem que pudesses ver
Nos meus olhos a dor da solidão!
Oh! Que deleite causa-me na essência
A luz dos teus olhos – doce e vaga reminiscência.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Afrodite

Os lábios, convulsos,
Querem beber a vida em beijos
Nos lábios teus.
Movidos por impulso,
Lançar-te ao adejo,
Entregue aos desejos
De um venturoso himeneu!

Os eflúvios do lírio
Ao orvalhar da madrugada
São gotas de delírio
Que borrifo em minha amada.
Oh! Desvario:
Dormir na alvorada
Com os olhos ainda derramando
Lascívia da noite acabada!

Tu me viste ao relento,
Roto e macilento,
Caminhando sem porvir.
Entregaste-me o coração,
Ainda frio e sonolento,
Contudo com ânsia de sorrir.

Alma pura,
Que nunca sentira o ressaibo da saudade;
Que nunca secara as lágrimas
Por causa de um forasteiro...
Embala-te aos braços da saciedade,
Aos alentos da mocidade
Deste amor verdadeiro!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Desabafo

É muito querer e pouco ter. Mas não é apenas querer ter; é querer ser e não conseguir ser. Isso é ainda mais doloroso. Pois quando se deseja ter algo, pode ser alguma coisa absurda. Desde um livro até uma ilha; de uma puta até um amor. Mas quando se quer ser algo, geralmente, este algo é simples. Básico, talvez. E não conseguir ser, descubro agora, é uma frustração.
A arma mais devastadora de corações é a indiferença. Mesmo cercado de pessoas, de todos os tipos, sinto-me só. Percebo que muitas destas que me rodeiam não me acrescentam nada; nem me tiram coisa alguma.
O fato é: Não sei a razão pela qual minha vida se cruza com outras; não sei o motivo pelo qual se abrigam em mim, nos meus beijos. Afundo-me na própria solidão. Sou apenas mais um na multidão atordoada. E o pior: Eu sou o mais atordoado. Pior: Estou no caminho contrário. Este estar-no-mundo me faz mal.
Como alguém pode ser frio com outrem? Como pode falar sem olhar nos olhos? Vaidade! Hipocrisia! Vejo almas vazias.
Viver não é estar vivo. Viver é enxergar: enxergar o que se sente, o que se ouve; é enxergar-se. É sentir o que se enxerga. E as pessoas cegas? Não digo cegas dos olhos, mas cegas da alma.
Relacionamentos feitos em cima de promessas jamais darão certo! Cumplicidade de menos e demasiadas cobranças. Estou extenuado. Mas ainda sinto dor.
Os momentos agradáveis foram todos dispensáveis. Se eu não tivesse amado, meu coração não se sentiria falto, posto que fosse frio. E a única coisa irreversível é a frialdade. E, talvez, a morte. Justamente, um cadáver é gelado.
É a folha seca que cai da árvore, sempre no mesmo lugar. Serve de quê?!
Preciso de segunda chance, mas sei que a terceira será necessária em pouco tempo. E perdoar engendra uma sensação de superioridade; esquecer é servidão. Assim, um simples aprendizado transforma-se em competição. Não se pode partilhar. Isto me dói.
Caralho! É tão difícil ser companheiro?
Não sei que esperança pulsa neste peito. Mas ainda há pessoas boas.
Também sou culpado, mas alego impotência. Sou fraco. Ouço vozes que destilam venenos, e por isso me calo. Eu minto para mim, mas quero ser a fênix. O sol brilha acima de minha cabeça, porém ao lado dele há os arrogantes.
A eternidade não me agrada, pois ela é indiferente ao tempo. E tempo é permissão. E o infinito não me agrada, pois ele é indiferente ao espaço. E espaço é possibilidade.
Hoje sei que há gritos calados. Sei, também, que há prantos extremamente secos. E que estes não possuem valia. O silêncio é uma forma de conversar...
Cresci. Atualmente, sou capaz de perdoar uma traição. Percebi que algumas são sinceras, principalmente para seus autores. Quando muito, para todos.
Há confusão entre sinceridade e oportunidade, entre verdade e oportunidade. Sou acometido por novas dores velhas. Sinto-me ruído; arruinado.
Sou vulnerável. Possuo um coração passional e não consigo caminhar sobre abismos. Não fui capaz de manter-me de pé, quando o caminho se estreitava. Tentei apoiar-me em algo, mas no escuro não distingui a mão que me segurava. Nem a que me estrangulava.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Quando

Quando pousas tuas mãos
Neste peito que pulsa de amor,
Sentes nelas o tremor
Que reforça a pulsação?

Quando recolho tua face fria
Junto ao meu peito arfante
E sinto em teus olhos cintilantes
A lágrima do amor que se anuncia...
Não sentes meu afã
Rogando-te um amanhã?

Quando repouso meu olhar
No teu coração...
Quantas sombras se vão!
Como é doce ver-te caminhar!

És capaz de matar um mancebo
Que te fita os olhos pela primeira vez.
E, vidrado em tua tez,
Desvaira, sonha, morre de languidez!

Embalde reprimo os sonhos
Que me trazem uma visão:
Estás à beira da morte, acima da perfeição
E me acenas com um sorriso triste e medonho!

Oh, amada! Oh, moribunda!
Descansas agora a vida
Sob minhas palavras sofridas
Em solidão profunda!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Noite insana

Por quem suspiras,
Virgem dos lábios de mel?
Tão forte respiras,
Mais alto que a lua no céu!

Se, febril, o teu peito arqueja,
Por amor o meu se desvanece...
Se os meus lábios tua boca beija
Meu olhar de moribundo se aquece.

Oh! Ainda há uma esperança
Nos sonhos deste amor:
Fazer valer uma lembrança
Da mocidade, ainda pura, do pecador!

Que na fronte de minha amada
Eu possa sorver-lhe a última gota de lágrima!
E suspirar, gemendo e chorando,
Na ventura das lágrimas trocadas!

Como o céu é lindo!
E a lua parece nos guiar
- sorrindo!
Com seu pálido brilho a nos acalentar.