domingo, 3 de abril de 2011

O sol

Surgiu revigorado o sol,
Beijando e acariciando a vida,
No espaço em que deflorara a noite,
Possuindo-a, altaneiro, lentamente.

Vê: este sol não é o de ontem,
Há nele uma nova espécie de luz,
Um sêmen que doura, que floresce
E que encanta; tampouco será
O sol do possível amanhã,
Pálido, de outrora; doravante
Será um sol apaixonado,
Derramando,
Gota
A gota,
A sua ternura.

Seguir-se-ão os dias, e o sol se manterá
Primaveril, molhado ainda pelo esperma
Da derradeira noite solitária.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A manhã

Amor, famélico vou regendo a aurora,
Tecendo alvoradas com dedos indômitos,
Emancipando dores funestas, as quais
Fenecem em teu sorriso, em cuja força
Amanhece meu desejo.

Amor, sol reinante floresce nos teus beijos,
E no infinito, abruptamente, ressoa meu amor desmedido,
No infinito, miseravelmente, algo cresce e se desfaz,
No infinito, renasce algo ainda mais forte,
E então saio das cinzas como a fênix,
Levando-te nos braços, ou talvez na memória.

Beija-me, antes que o crepúsculo principie
E tu me vejas envolto em pesadelo e trevas.
Beija-me urgentemente, pois o resplendor
Matutino já se desvanece em prantos.

terça-feira, 15 de março de 2011

Desta matéria viva

Não são de lágrimas os teus olhos,
Tampouco de alegria combatida:
São de oceano, cuja ambição única
É estender-se sob o sol,
Estabelecendo, assim, sua passagem
Perene, macrocosmicamente,
E efêmera, microcosmicamente,
Pelos tantos caminhos abortados,
Íngremes em sua vastidão.

Não é palpável a analogia desses olhos,
Em cuja reverberação se reflete a natureza:
Fixos, são duas luas triunfantes no colossal
Aspecto da fronte; móveis, esses olhos são
Duas aves famintas e irascíveis que percorrem
Territórios inexplorados, e deflagram
Zonas pacíficas, e produzem as intempéries.
E assim se formam, amor, teus olhos de oceano.

terça-feira, 1 de março de 2011

Este planeta

Não apenas identificando estrelas,
Não somente imitando o aspecto
Grave da lua, mas também recriando o universo
À tua semelhança, iracundo como o vento,
Empreendi jornadas incríveis que resultaram
Em intermitentes labores:

As constelações eram teus olhos,
Era o teu ventre a imensidão do céu,
Os teus seios rijos eram dois pássaros
Que sobrevoam por este azul interminável;
A tua genitália era a lua, em cujos mistérios
Penetro para louvar nesta poesia;
Os raios solares eram teus cabelos,
Auríferas substâncias que douram
Os seres e que se renovam a cada olhar.

Sou devoto do mundo e, portanto, amo-te
Sem início nem fim nem paradeiro,
Indiferente às distâncias e ao tempo,
Pois, sendo universo para mim,
És plena como o ar, invadindo-me o pulmão
E o coração e adjacências com teu amor ubíquo.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Araguaia

Sobre o manto do teu silêncio,
Araguaia, uma voz bradou:
Pão, terra, liberdade!
E as vozes tirânicas responderam
Com terror, sangue e morte
À luta que então florescia
No seio do teu solo acolhedor, Araguaia.

Quantas vozes falam
Por teu vento uivante, quantos gemidos
De dor se calaram em teus crepúsculos!
Dá-me uma memória, Araguaia,
E que nela esteja a paz de estar lutando.

Araguaia, tão férteis são tuas terras
Que o sangue vertido germinou,
E corre através de minhas veias,
Para invocar tua memória,
Para eternizá-la junto aos meus companheiros.

E os que se embrenharam na mata,
Os meus camaradas, levavam consigo não mais
Que uma bandeira rubra em seus corações.

Levai esta certeza aos vossos túmulos
Inexistentes, corações insepultos:
Nossa luta renasce em vossa morte.

Araguaia, és a minha bandeira!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Integração

Soaram as horas da insônia,
E no beijo que a lua derrama
Sobre o mundo noturno, senti que chegaste,
Tenaz como feixe de luz.

Tua presença tornou-se indissolúvel,
Teu aroma e teu bálsamo acolheram
Minhas lamúrias, e nas lágrimas
De outrora teu riso límpido desenhou
Meu novo semblante.

Imediatamente o ar balbuciou teu nome,
O mesmo ar que se respira tornou-se
Alimento: e respirei-te, e ingeri-te,
E influí-te, amei-te.

Amo-te porque me insuflas,
E por amar-te defloro o contentamento,
Bem como o regozijo errante que se abrigou
No teu ventre, cuja beleza indizível
Manifesta-se na atmosfera.